O MAR DA GALILÉIA...
Prof. Raymundo Cortizo Perez, (Th.D.)
O mistério de Jesus caminhando sobre as águas desafia as fronteiras da percepção humana e convida a alma a um mergulho em três dimensões profundas da existência. No âmbito cosmológico, o milagre representa a supremacia do Logos divino sobre o caos primordial, onde as forças brutas da natureza reconhecem a voz de seu Criador e se curvam à Sua soberania. Sob a lente filosófica, o episódio instaura um paradoxo eterno entre a razão e a fé: a fragilidade da lógica humana, representada por Pedro ao afundar, é confrontada pela estabilidade de uma realidade superior que transcende as leis da física. Por fim, na esfera lírica, o cenário da tempestade na madrugada traduz o drama íntimo do espírito humano — o confronto com a solidão, o medo do abismo e o anseio profundo por uma mão que nos resgate da escuridão.
As epígrafes a seguir preparam o olhar para essa jornada mística, onde o impossível se torna o único caminho viável.
"Aquele que sozinho estende os céus, e caminha sobre as ondas do mar."
— Jó 9:8
"O milagre não viola as leis da natureza, mas nos revela leis de uma ordem superior, onde a matéria se torna o tapete do Espírito."
— Santo Agostinho
"Para quem viaja em direção ao Infinito, o próprio abismo se
transforma em chão sólido e a tempestade em melodia."
— São João da Cruz
No mar da Galileia, o caos original
Desperta a velha noite em fúria elementar;
O abismo quer tragar o frágil barco mortal,
E a treva se dissolve em ondas feitas de mar.
Na quarta vigília, além de todo o visível,
Uma silhueta avança e rompe a lei do chão;
O Verbo caminha sobre o fluxo intangível,
Pisando o próprio medo e a humana ilusão.
Não é fantasma ou sombra a flutuar na espuma,
É o próprio Eixo Eterno que domina o vento;
A física se dobra e desfaz-se em bruma,
Pois Deus rasga o espaço, a matéria e o tempo.
O Cosmo se aquieta ao toque de Seus pés,
Mistério profundo que a razão não alcança:
O Logos que sustenta as estrelas fiéis
Estende Sua mão à nossa curta esperança.
Se Pedro afunda ao ver o abismo rugir,
A Graça o resgata do vácuo e da morte;
Quem sobre as águas pode o Infinito medir?
O Dono do mar é quem nos guia o norte.
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